#20 A economia da indignação
A viralização morreu, uma década sem mudança no terceiro setor, IA e governança - e outras inquietações
Nas edições anteriores:
#19 TEDx Speaker
#18 O individualismo como barreira
Primeira verdade: A viralização morreu
900 segundos. Uma apresentação histórica no Super Bowl, do cantor porto-riquenho Bad Bunny, curando veias abertas para além da América Latina. A construção de um arco narrativo de impacto, da bandeira que todos nós deveríamos ecoar: o amor é poderoso. Via-se memória e afeto no macro e no detalhe -e das marcas que souberam se posicionar pelo amor em tempos que parecem ser mais odiar. Não é.
O buzz (merecido e comemorado) durou pouco no seu feed porque o algoritmo quis assim. Se antes uma boa ideia permanecia por semanas, hoje, com alguma sorte, dura horas. Nunca se produziu, distribuiu e consumiu tanta informação. Circular já não significa consolidar influência, construir legitimidade ou produzir mudança estrutural. Quando tudo viraliza, nada permanece.
Vivemos um teste contínuo de estímulos. Plataformas deixaram de operar como arenas públicas de construção simbólica. São máquinas de retenção, com mecanismos que seguem a lógica dos cassinos, como tão bem descreveu a antropologista Natasha Dow Schüll, que mergulhou por mais de uma década no funcionamento das máquinas de caça-níqueis para escrever Addiction By Design.
Recompensas intermitentes, ciclos curtos de estímulo, microdoses de dopamina que mantêm a gente - e nossos filhos - presos à tela, sem paradas. Esse ecossistema recompensa ativação emocional rápida, o que venho chamando de 'microbolhas de afeto'.
Aqui temos um ponto-chave: estudos sobre desinformação e polarização digital mostram, de forma consistente, que conteúdos carregados de emoção - especialmente indignação, medo, raiva e ressentimento - tendem a circular mais.
Não porque sejam mais verdadeiros, mas porque ativam com mais força os nossos circuitos de atenção. Saímos - e por vezes somos tomados - por essas sensações, que ultrapassam a nossa tela e passam a circular porque a engranagem estabeleceu que assim seria.
A extrema-direita entendeu cedo que o ambiente algorítmico favorece estímulos identitários: mensagens simples, polarizadas, emocionalmente carregadas e repetidas com consistência performam melhor em plataformas desenhadas para retenção.
ESPIA
Arquitetura da informação, incidência e impacto pautaram nosso planejamento



Segunda verdade:
O terceiro setor comunica como se ainda estivéssemos em 2015
Isso não é opinião. A pesquisa Challenges for Nonprofit Communicators 2025 mostra que o terceiro setor opera comunicação como se estivéssemos em 2015.
O que não mudou em dez anos:
E-mail ainda é classificado como “muito efetivo” por quase metade dos participantes;
Websites institucionais e eventos presenciais seguem entre os mais valorizados;
Mais de 30% apontam restrições orçamentárias como obstáculo central;
Falta de tempo para produzir conteúdo de qualidade segue entre as principais dificuldades;
Incapacidade de mensurar efetividade aparece com ainda mais força, quase um terço.
À primeira vista, isso pode soar como conservadorismo ou atraso em relação às plataformas. Mas há um traço comum nesses canais “favoritos”, segundo profissionais que atuam no setor.
Converso muito com meu time sobre isso: precisamos olhar para além da superfície e perceber as muitas nuances. A discussão é sobre controle e governança.
O que esses dados não mostram:
Se isso é, na verdade, uma decisão de sobrevivência: poucos recursos humanos e econômicos, operação no limite, pouco espaço para apostas.
Risco embutido: uma racionalidade defensiva que impede a construção de pontes estruturais entre atenção pública e poder decisório.
Se a atenção pública é majoritariamente mediada por algoritmos, reduzir presença significa, muitas vezes, abrir mão de disputar conversas e disputas simbólicas.
Disputar atenção sem disputar arquitetura - o ecossistema informacional - enfraquece a comunicação como instrumento de incidência. Se o problema fosse só acesso a ferramentas, a popularização das plataformas digitais (e agora da IA) teria mudado o jogo. Mas tecnologia reduz barreiras de produção, não redistribui automaticamente tempo, orçamento, equipe qualificada e infraestrutura de dados. Sem isso, “inovação” não vira influência.
Enquanto tratarmos comunicação como produção de conteúdo , e não como infraestrutura de incidência, em 2035 o retrato será o mesmo.
Terceira verdade:
A era da “IA quase grátis” não é um direito adquirido
Compartilho aqui porque fez sucesso em outra rede: nos últimos 12 meses, vi ONGs acelerarem muita coisa com IA “co-escrevendo” o dia a dia - editais e captação, relatórios de impacto, conteúdo e campanhas, sínteses de evidências, atendimento e triagem.
O problema é que, à medida que a IA vira infraestrutura (tipo nuvem, e-mail, internet), o custo real aparece: energia, chips, privacidade, compliance, segurança e dependência de plataforma.
O risco não é “ficar sem IA”. É criar um novo abismo: ONGs que conseguem pagar por IA privada e de alta qualidade avançam; as que não conseguem perdem capacidade exatamente quando a demanda aumenta.
Do que dá para fazer agora: juntei insights de conversas que venho tendo, mais ideias do artigo The Low-Cost AI Illusion (Stanford Social Innovation Review), e transformei em um checklist simples de governança para IA (política de uso + matriz de risco + rotina de revisão).
Se você quiser, me responda com “oi” e eu te envio.
Barqueata em defesa do rio Tapajós realizada no último dia 19 de fevereiro (Foto: Movimento Tapajós Vivo).
Alessandra Korap Munduruku.
Anote este nome, se você ainda não a conhece.
A força de rio a move, e o mesmo acontece com quem está ao lado dela.
Dessa vez, a água inundou e provocou a revogação do decreto (12.600/2025), que autorizava a concessão de hidrovias à iniciativa privada. Queriam vender os rios.
Alessandra vira água.
A força do levante indígena brasileiro nasce da impossibilidade de existir de outra maneira. Num mundo que diz se preocupar com o meio ambiente, mas não age como se fosse maioria. Em que muitos desejam reconhecimento de liderança climática, mas precisam ser confrontados, continuamente, por suas incoerências. Em que empresas afirmam fazer muito e entregam pouco - quando não fazem propaganda enganosa.
Que a gente esteja disposto a aprender com os povos indígenas.
Precisamos virar água.
Para ver já
Este reels da The Economist é uma aula de informação, produção de conhecimento e timing. Mas eu queria chamar atenção para uma imagem específica: eles chamam de networking, eu prefiro engrenagem.
Foi esta engrenagem que fez Jeffrey Epstein, abusador de crianças investigado acusado de tráfico de dezenas de meninas adolescentes , ser intocável por décadas. Por que a minha insistência: porque é a engrenagem que precisamos mudar. E enquanto todo o ciclo não for sensibilizado, a mudança demora mais a acontecer.
Para ler com calma
Sem despedidas, romance que avança na bruma trágica que encobre o passado da Coreia do Sul e seus milhares de mortos sob o regime. Da laureada com o Prêmio Nobel de Literatura, Han Kang.
Para ver com calma
(a conversa a seguir é sobre abuso de crianças, pode trazer desconforto)
Há alguns anos, assisti a uma minissérie sobre Madeleine McCann, que desapareceu em Portugal em 2007. Uma cena não me saiu da cabeça: um investigador precisou parar de analisar crimes envolvendo crianças na dark web porque não tinha mais condições emocionais.
Você pode salvar uma criança ou um adolescente. Disque 100.
Esse desconforto voltou com o documentário Infiltrados na Dark Web (BBC), que acompanha agentes que atuam para identificar abusadores e ajudar a resgatar crianças.
O mundo mudou
Por que seguir comunicando do mesmo jeito?
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Eu sou a Thais Lazzeri, fundadora e diretora da FALA, um estúdio de impacto brasileiro que promove mudança social por meio do storytelling, da comunicação e da estratégia.













